1.11.16

E eu era tão pouco ao senti-lo ser tanto.

Diário de quem é só. E gosta.

26.09.2016
            Começou mais um dia na tão louca rotina que é o mais fiel possível à palavra: todos os dias, mas todos os dias, apanhar o comboio - relativamente cedo – para o porto, apanhar o metro e entrar na infernal Faculdade de Psicologia. Não que seja infernal por trazer o peso na consciência de ter entrado onde não queria, aliás, foi a primeira e única opção em que eu veria num futuro a longo prazo, apenas a caracterizo assim porque preferia estar em qualquer lugar do mundo menos aqui. Uma aula bastou para me encher a cabeça de vontade de voltar para o meu ninho, o meu canto onde eu reconheço que, apesar de enfadonho, é a minha felicidade. Só nesta aula tive a completa noção de que o meu cérebro não está preparado para enfrentar mais um ano de investimento e dedicação, há coisas mais importantes.
            De tarde, após a aula à qual nunca posso faltar, fui passear - fisicamente, porque a mnha cabeça esteve o tempo todo em outro lugar que ainda não quero revelar – para a baixa. Sempre adorei lá ir, sou uma total viciada em lojas e detesto perder uma oportunidade de compra, mas hoje foi estranhamente diferente, a minha impaciência não me deixou prestar atenção a qualquer saia engraçada ou blusa em saldo. Nem sou de me cansar rápido, mas hoje cansei-me de tudo. Gulosa de nascença fui comer um McFlurry de Snickers, uma delícia que só descobri a semana passada (isto devia ser um pecado maior que a gula) totalmente sozinha e sentei-me a apreciar o meu belo gelado e aqui começou o pico da minha reflexão diária. Estando o McDonalds cheio de grupos e pares levou-me a pensar no que os outros pensariam ao ver-me sozinha -  não que me interesse o que pensam, de qualquer das maneiras eu não pretendia sair de lá.
“Será que está à espera de alguém que a deixou pendurada?” foi o meu primeiro pensamento. Claro que isto era uma hipótese e, se fosse verdade, eu não ia desperdiçar um belo descanço a comer um gelado apenas porque fui abandonada no altar dos deuses. “Será que está a empatar tempo para ir a algum sítio ou ir ter com alguém?” não deixava de ser verdade, mas foi muito mais que isso. “Será que ela se sente sozinha?” outra questão pertinente e repleta de veracidade, mas nem sempre só significa triste. Na minha cabeça surgiu o que penso ser o mais próximo do que sinto: quero e posso estar sozinha, sou demasiado independente e confiante em mim para só poder dirigir-me a sitios públicos e sentir-me bem neles se tiver comigo alguém que, se calhar, nem vejo do coração.

Neste momento, ele perdeu alguma importância, ainda que fosse a principal razão para eu ter desistido de investir o meu tempo em futilidades como moda. O todo que ele significava, a intensidade do “quero-o comigo, de novo” esbateu-se e foi diminuída pelo poder do “eu estou bem só”. Andava pela ponte D.Luís a passear. E se eu, num acidente propositado, passasse por lá? Como será que ele reagiria? Pior, como será que eu iria reagir quando o visse de novo e soubesse que tanto mudou. Por não saber a resposta a nada disso fiquei quieta a acabar o meu delicioso e companheiro gelado.