15.8.14

Eu cá estou. É como vês. Lá vou andando. Que outra coisa podia fazer? Já me conheces. Pois, tu é que dizes que nunca me conheceste. Esqueci-me disso. Esquece. Vamos mas é ao que interessa. Só tu me interessas. Tudo o que dizes e fazes é interessante. Não conheço mais ninguém que seja assim. Infelizmente, princesa, infelizmente…
O que é que fizeste ao cabelo? Nada? Parece. É bom quando as coisas estão iguais mas parecem diferentes. Melhor do que quando estão diferentes e não se repara, não é?
Tens de ir já embora? Pois, eu já sei, escusas de me dizer.
Nunca vieste.
É melhor assim. Sem razão para me despedir de ti. Sem recordação de como foi quando cá voltaste.

Entra, entra… Entra outra vez. Eu explico.

Até envergonha explicar que o que tínhamos de mais precioso e evidente era que mais ninguém nos interessava, no sentido mais concreto, de só nos interessarmos um pelo outro (…) Não era apenas uma questão de amor. Era verdade.
Ela ocupa-me, dá-me cabo da cabeça, põe-me em bicos de pés, absorve-me, faz-me pensar, engana-me, surpreende-me, leva-me a julgar a vida curta para sequer começar a conhce-la (…) Interessa-me. É a única pessoa neste mundo que me interessa. Se parece pouco, tenho pena de quem não tenha a sorte de saber que nada há de mais sublime, ou de eterno, do que ficar interessado, e assim permanecer, com o coração e a cabeça à beira de rebentar, zangados com os seus limites, mas felizes por tê-los levado tão longe e conhecê-los por ter conseguido lá chegar, e assim sossegar, numa inquietação bem fundada, de que tudo fizemos para esticar as nossas capacidades.

O amor em si nada tem de interessante. Quando duas pessoas se amam e se interessam, no sentido violento, insolúvel e deslumbrante que é o único interminável, ocupam-se tanto uma com a outra, mesmo estando afastadas, que o amor de tanto existir e ser vivido, pode dar-se ao luxo de ser esquecido e considerado (…)

Do amor verdadeiro mais resta do que o que se pensa. A capacidade, ainda intacta, de gostar. O exemplo, fixo na alma, suficiente para atingir uma imitação verosímil, mas grande de mais para reproduzir. À custa do que não se pode jamais pôr eu causa ou discutir. Nunca mais poder amar. Nunca mais suportar ser amado. Em troca duma infinita licença para não fazer nada.

Levei anos a convencer-me disto: o que eu era, foi ela que mo deu. Não podia levar o que não era meu. O que foi meu foi só para ela. O que me faltava ficou com ela. Guardo segredo disso. Foi a minha única grande invenção. Só eu sei a falta que essa pessoa que eu era me faz.

Havia vida depois do amor. Prazer. Simpatia. Ilusão. Passagem impetuosa do tempo. Bastava não estar sempre a lembrar-me.
Nem que fosse só o divertimento. O estar presente. Quando acontecia tudo o que calhava acontecer. Havia uma sensação de vida. Para não desperdiçar. Para agradecer. Para ir andando. Qualquer coisa dalguma forma mais suportável que morrer. 

Atirei-me ao que havia. Nem foi preciso mexer-me. As coisas viriam ter comigo. Era só uma questão de lá estar para as receber.


Isto não acaba assim.

A ser como quase sempre, mas nem sempre sempre assim.

As coisas não duram para sempre. E as pessoas muito menos. E eu menos ainda. Tudo o que não puder impedir de acontecer, acontecerá. E aconteceu-me. E aconteceu-nos a nós. A mim e a ela. E eu não pude impedir.

Isto continua.

Amor da minha vida.
Assunto resolvido.

Entretanto, o que segue já foi e já se sabe. Quem sabe se não é melhor que nada? E, mesmo que não venha a ser, pelo menos há uma probabilidade de ser, pelo menos, diferente. É aquela palavra que vem sempre com uma esperança pequena - nem que seja por não se saber onde acaba.

Sem comentários: